Sou um homem abençoado! Tenho uns pais que guiaram bem a formação do meu carácter, uma irmã IRMÃ, uma madrinha mais que 5 estrelas e uma família que me ajudou sempre que precisei. Tenho uma esposa de sonho, um filho que parece feito de encomenda na fábrica da perfeição, uns amigos maravilhosos e uma saúde de ferro enferrujado por alguns espirros ocasionais...
Mas sou um felizardo também por outras razões. Sou culto, informado e gosto de pensar que sou bem formado. Procuro fontes de saber como quem tem uma sede de morte, e também fontes de prazer na cultura, como quem morre senão experimentar algo de belo, novo, diferente... Adoro música. Os contornos da minha vida desenham-se ao som das diversas melodias que génios mundanos e eruditos arrancaram da sua alma para dar ao mundo. E dado ao mundo, foi dado a mim. Não vivo sem banda sonora, sem uma faixa constante de algo apropriado, ou por vezes não muito, que me faça saborear cada passo da vida como quem prova um doce de sobremesa, ou a adrenalina de um café. Sou feliz porque ouço, porque posso apreciar o que outros deram de si, fazendo do mundo um lugar mais acolhedor, mais quente, mais orgânico e humano.
Ontem foi um dos dias de extremo êxtase. A meio do dia zarpei rumo a Lisboa, esperança na bagagem e uma vontade na alma de ver actuar mais uma vez uma das bandas mais verdadeiras e humanas que tenho o prazer de conhecer e apreciar. Passaram já por muito, guerras internas e externas, problemas pessoais e musicais, mas sempre conseguiram rumar em frente, pôr a música antes da vida, porque para eles a música É a vida. Ontem fui ver os Metallica. Com infâncias problemáticas, histórias de abandono ou desleixo, de violência ou descuido, chegaram à idade adulta com algo para dizer, para cantar. Lições que, graças a Deus, não tivemos de aprender na pele, mas que nos ensinam que cada vida é uma vida, e nenhum homem é mais que outro, no valor que a vida tem. Pode ter mais ou ter menos, mas nunca é mais ou menos. Antes igual, mas sempre diferente, sempre único. Ouvir a sua música, mesmo a que mais raiva contém, não traz nada de mal a quem a ouve. Apenas liberta os monstros escondidos que todos guardamos no armário do peito, e que precisam do ambiente certo para sair. Para que não machuquem aqueles que mais amamos.
Ouvi-los ao vivo é senti-los próximos. Não como amigos, ou conselheiros, mas como contadores de histórias, da sua história, que nos chega carregada de emoções, lições de vida e aceitação da existência com tudo o que com ela vem. Ser parte da assistência é largar em 2 horas um ano de frustrações, de tristezas e dissabores, é retemperar a alma com beleza, redescobrir um sentido próprio, perceber que é possível triunfar e regressar à felicidade. A sua música não é calma, mas quem nega a beleza de uma noite de trovoada, ou de uma erupção vulcânica? Há algo de perfeito na música desta banda. Ensina-nos que a imperfeição do mundo, aquilo que aparentemente o desfigura, é aquilo que o unifica e torna único. Melodias harmoniosas cortadas por riffs de pura raiva demonstram que é nesta dissonância, na aparente desarmonia que reside a natureza humana. Não somos perfeitos, nunca o seremos, e nada do que criamos o é, pois nada é mais perfeito do que o seu criador.
Foram 7 horas de viagem, metade da noite ao volante e uma carrinha com portugueses, italianas e um mexicano. Foi um dia perfeito, pois foi único e memorável. Do concerto não fica a memória das músicas, ou de momentos particulares, como as bolas insufláveis negras, socadas de lado para lado, simbolizando as agruras da vida que só queremos aniquilar, ou deambulações entre o público, que nos põe ora junto à saída ora encostados ao palco, ou gigantes caixões dançantes sobre as nossas cabeças, ou ainda belos e ardentes jogos de pirotecnia mostrando que por vezes também vale a pena brincar com o fogo, ou mesmo a proximidade de artistas que atravessam um oceano par trazer até nós a música que os deixou para passar a ser do mundo. Não, o que fica é a sensação de que realmente tudo vale a pena quando é vivido como se fosse a última vez, tudo é perfeito se for aceite tal como é. Respeitar a natureza das coisas, viver a vida como ela é, sem querer mundos que não são nossos, esse é o segredo da plena felicidade. Sou muito afortunado. Vivo a vida que Deus me deu, e todos os dias agradeço o que tenho, por pouco que seja, pois não sei se amanhã estarei pior que hoje. Contudo sei que, a acontecer, já vivi mais do que pedi quando aterrei no planeta Terra...
Meu Deus, obrigado por ser quem sou, ter o que tenho e poder dar tudo aquilo que posso. Obrigado.
Mas sou um felizardo também por outras razões. Sou culto, informado e gosto de pensar que sou bem formado. Procuro fontes de saber como quem tem uma sede de morte, e também fontes de prazer na cultura, como quem morre senão experimentar algo de belo, novo, diferente... Adoro música. Os contornos da minha vida desenham-se ao som das diversas melodias que génios mundanos e eruditos arrancaram da sua alma para dar ao mundo. E dado ao mundo, foi dado a mim. Não vivo sem banda sonora, sem uma faixa constante de algo apropriado, ou por vezes não muito, que me faça saborear cada passo da vida como quem prova um doce de sobremesa, ou a adrenalina de um café. Sou feliz porque ouço, porque posso apreciar o que outros deram de si, fazendo do mundo um lugar mais acolhedor, mais quente, mais orgânico e humano.
Ontem foi um dos dias de extremo êxtase. A meio do dia zarpei rumo a Lisboa, esperança na bagagem e uma vontade na alma de ver actuar mais uma vez uma das bandas mais verdadeiras e humanas que tenho o prazer de conhecer e apreciar. Passaram já por muito, guerras internas e externas, problemas pessoais e musicais, mas sempre conseguiram rumar em frente, pôr a música antes da vida, porque para eles a música É a vida. Ontem fui ver os Metallica. Com infâncias problemáticas, histórias de abandono ou desleixo, de violência ou descuido, chegaram à idade adulta com algo para dizer, para cantar. Lições que, graças a Deus, não tivemos de aprender na pele, mas que nos ensinam que cada vida é uma vida, e nenhum homem é mais que outro, no valor que a vida tem. Pode ter mais ou ter menos, mas nunca é mais ou menos. Antes igual, mas sempre diferente, sempre único. Ouvir a sua música, mesmo a que mais raiva contém, não traz nada de mal a quem a ouve. Apenas liberta os monstros escondidos que todos guardamos no armário do peito, e que precisam do ambiente certo para sair. Para que não machuquem aqueles que mais amamos.
Ouvi-los ao vivo é senti-los próximos. Não como amigos, ou conselheiros, mas como contadores de histórias, da sua história, que nos chega carregada de emoções, lições de vida e aceitação da existência com tudo o que com ela vem. Ser parte da assistência é largar em 2 horas um ano de frustrações, de tristezas e dissabores, é retemperar a alma com beleza, redescobrir um sentido próprio, perceber que é possível triunfar e regressar à felicidade. A sua música não é calma, mas quem nega a beleza de uma noite de trovoada, ou de uma erupção vulcânica? Há algo de perfeito na música desta banda. Ensina-nos que a imperfeição do mundo, aquilo que aparentemente o desfigura, é aquilo que o unifica e torna único. Melodias harmoniosas cortadas por riffs de pura raiva demonstram que é nesta dissonância, na aparente desarmonia que reside a natureza humana. Não somos perfeitos, nunca o seremos, e nada do que criamos o é, pois nada é mais perfeito do que o seu criador.
Foram 7 horas de viagem, metade da noite ao volante e uma carrinha com portugueses, italianas e um mexicano. Foi um dia perfeito, pois foi único e memorável. Do concerto não fica a memória das músicas, ou de momentos particulares, como as bolas insufláveis negras, socadas de lado para lado, simbolizando as agruras da vida que só queremos aniquilar, ou deambulações entre o público, que nos põe ora junto à saída ora encostados ao palco, ou gigantes caixões dançantes sobre as nossas cabeças, ou ainda belos e ardentes jogos de pirotecnia mostrando que por vezes também vale a pena brincar com o fogo, ou mesmo a proximidade de artistas que atravessam um oceano par trazer até nós a música que os deixou para passar a ser do mundo. Não, o que fica é a sensação de que realmente tudo vale a pena quando é vivido como se fosse a última vez, tudo é perfeito se for aceite tal como é. Respeitar a natureza das coisas, viver a vida como ela é, sem querer mundos que não são nossos, esse é o segredo da plena felicidade. Sou muito afortunado. Vivo a vida que Deus me deu, e todos os dias agradeço o que tenho, por pouco que seja, pois não sei se amanhã estarei pior que hoje. Contudo sei que, a acontecer, já vivi mais do que pedi quando aterrei no planeta Terra...
Meu Deus, obrigado por ser quem sou, ter o que tenho e poder dar tudo aquilo que posso. Obrigado.
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